O direito ao processo
Sobre uma sociedade viciada no produto final
Seja bem-vinde a mais um texto da newsletter Ovelha Azul - um reflexo ocasional das vozes da minha cabeça.
O tempo
Tenho a impressão de que o tempo contemporâneo é um tema comum nas nossas discussões e angústias. A velocidade do consumo tornando tudo efêmero, reduzindo o tempo ao agora, criando uma urgência infinita. A vitrine das plataformas sociais trabalhando com pequenos fragmentos do imediato, expondo um produto final - um corpo, uma roupa, uma arte. Não fazemos ideia de como aquilo foi feito ou quanto tempo levou para ficar pronto, e nem para onde irá depois de passar tão rápido pelo feed. Vivemos sem antes ou depois, apenas um eterno, inescapável, agora.

Ao longo de 2025, o tema “tempo” me ocupou a cabeça e eu tentei escrever este texto aqui algumas vezes. Depois de alguns rascunhos frustrados, eu entendi que não era sobre essa sensação de urgência que eu queria falar. Não sei quem veio primeiro, o ovo ou a galinha, mas o meu foco é num fenômeno irmão, análogo, que talvez seja a mesma coisa mas com uma roupinha diferente. Este texto é sobre o processo, e sobre como ele caiu na desgraça porque vivemos em uma sociedade viciada em resultados. Talvez falar sobre tempo seja falar sobre processo, de alguma forma, e foi assim que cheguei aqui. Eu sei que parece óbvio falar que gostamos de resultados, de produtos finais, mas eu vou tentar levar a ideia um pouco além.
Este texto é sobre o a alienação do nosso direito ao processo.
O consumo
Consumidores, por definição, não precisam ter interesse pelo processo. Consumir é uma prática que foca só no produto final: quem fez, como fez, de onde vem, porque foi daquela e não de outra forma - nada disso interessa. Não sabemos como a brusinha que compramos ou a casa que vivemos foram feitas. Não entendemos a cadeia de produção que levou o almoço na nossa mesa. Fomos cuidadosamente acostumados a nos desinteressar pelo antes ou depois dos produtos que consumimos, considerando isso tudo uma conveniência, e não uma alienação. O foco é, única e exclusivamente, em produtos finais, e não no seu processo de produção.
Em A terra dá, a terra quer, Nego Bispo fala sobre esta realidade estranha de consumidores finais. Ele conta sobre o choque que foi sair do quilombo pra vir pra cidade: aqui, as pessoas vivem em casas que não construíram. As pessoas produzem lixo - um conceito que não existe na cosmovisão do quilombo. As pessoas se alimentam de frutas e legumes produzidos em regiões distantes, sem considerar o que é nativo ou local. Esse livro me deixou obcecada por tudo que eu consumo, todos os produtos que regem a minha vida, e eu não faço a menor ideia de como são feitos.
A realidade é que somos apenas consumidores, e consumidores não têm direito ao processo, apenas ao produto final.

A produção
Era uma vez alguns séculos atrás o sapateiro, que fazia o sapato de cabo a rabo. Ele conhece os fornecedores, entende como cada etapa impacta o produto final, e passou anos se especializando. Não raro, ele aprendeu com o pai, que aprendeu com o pai dele e assim por diante. Pulamos alguns anos pra frente, considerando a evolução fabril e a revolução industrial no século XVIII, e não existe mais um sapateiro. Existe a mão de obra da fábrica de sapatos, com operários assalariados que realizam tarefas específicas: um prepara o couro, outro faz os cortes, outro costura a sola. Marx chamou esse processo de alienação do trabalho: trabalhadores perdem controle dos meios de produção e não se reconhecem no produto final. Eles se reduzem a uma etapa qualquer de uma longa linha fabril, e os laços sociais são enfraquecidos por essa realidade alienante.
Se somos apenas pessoas que trabalham em uma pequena etapa de produção, sem entender direito como integramos no resultado, não veremos sentido no processo. Se nosso modo de vida é consumir produtos finais criados por outras pessoas que não conhecemos e não temos interesse em saber como fizeram aquilo, não há processo. O processo é só um atrito que me impede de chegar no produto final o mais rápido possível. O trabalho é uma formalidade pra eu juntar dinheiro e poder consumir.
A mão de obra, também, não tem direito ao processo.

A arte
“Confia no processo” é uma frase dita a rodo na comunidade artística. É a ideia de que nada nasce perfeito e que o produto final só existe por causa das escolhas feitas pelo caminho. Tudo bem, ao escrever ou desenhar, se deparar com a fase “feia” - ela passa. Talvez você tenha pensado que o texto era sobre isso: o fato de não conseguirmos adotar novos hobbies por queremos ser imediatamente bons em tudo, nessa nossa dificuldade com o processo de aprendizado. Ele é, de certa forma.
O direito ao processo é sobre arte também. Tanto produzir quanto ser capaz de apreciar, e não necessariamente só consumir. Nosso vício pelo resultado dificulta ver sentido em assistir filmes inteiros, “porque parece que estão enrolando”, ler livros longos, porque são “repetitivos”, ou andar por um museu. Nossa obsessão pelo produto final nos aliena da arte: orientados pela ideia de que tudo tem uma finalidade, um resultado, qualquer coisa que venha “a mais” parece um penduricalho inútil. Ficamos presos a uma visão altamente utilitária. Tudo precisa ser direto ao ponto - algo que, para fazer e consumir arte, costuma ser terrível.
Vício em resultado, necessariamente, é um processo de alienação. Consumir é uma forma de despir as coisas de história.

A tecnologia
Penso muito em como eu sou inapta com programação. Minha vida é pautada por tecnologia, com o computador e o celular, mas eu não faço ideia de como essas máquinas funcionam. A internet parece mágica, a gente não tem muita ideia de onde fica a nuvem. Eu só sei mais ou menos como funciona uma máquina só: IA, porque cometi (e estou cometendo) o mestrado neste tema. Deve ser por isso que estou pensando tanto em tempo e processo, porque a promessa da inteligência artificial é nós “salvar” dos dois. Esta é a visão de mundo embutida aqui: precisamos ser salvos do processo. IA é a síntese da ideia de que processo é frívolo, inútil, improdutivo, e que devemos nos voltar apenas para produtos finais.
Escrever um e-mail com ChatGPT é ignorar que comunicação é um exercício de troca e não um produto final. Falar de arte com IA é delírio porque é o atrito da jornada artística que cria algo que vale a pena olhar, ouvir, ler. A crença de que precisamos de um maquinário extrator de dados e acelerador de aquecimento global para nos poupar de “processos” é a mesma crença que não enxerga a população como humanos, mas como um exército de mão de obra e consumidores.
Processos são orgânicos. Privar a humanidade dos processos é uma forma de robotização.

O luxo
E, como tudo, o direito ao processo é comodificado. Para quem não tem tempo e dinheiro, que busquem atalhos: comam ultraprocessados, usem inteligência artificial, comprem do mais barato, encham o bucho de conteúdo de 30 segundos no Instagram. A quem pode, os orgânicos produzidos localmente, o slow content, a estética artística manual (o que mais tem agora é marca de luxo com propaganda “feita por humanos” - Who What Wear, Porshe, Hermès).
Nossa falta de direito ao processo - de todos eles, desde a nossa capacidade de fazer uma manualidade e ler um livro até a alienação do trabalho - é uma tragédia porque tudo, absolutamente tudo, é o processo. Direito ao processo é direito ao tempo. Somos privados de uma parte gigantesca do mundo quando só olhamos resultados, porque a forma que a vida funciona é em ciclo contínuo e não produto pronto. “Chegar direto ao ponto” na vida é paralelo a morrer, porque você deixa de fazer parte da jornada, do ciclo.
Existir é processo, não produto final.

Ei, vou dar um curso (de mercado)
Na minha outra vida, eu trabalho com pesquisa em marketing. Eu ainda quero fazer o grupo de estudo daqui da Ovelha, que tem uma pegada bem diferente, mas oportunidades e coisas da vida me atropelaram, de uma forma boa (?): vou dar um curso de quatro aulas pela PUC-Rio, remoto e ao vivo, sobre pesquisa exploratória. Desk Research e Trend Hunting, dois métodos que uso muito no trabalho e podem ser úteis pra outros profissionais de comunicação, estudantes, enfim, pessoas que queiram aprender da concepção, execução até a apresentação de um trabalho desse. Vem conhecer um pouco deste processo comigo?
É em março, e eu espero interessades lá!
Ovelha recomenda
Laura Weiler (site, @cutandplaced) é uma artista visual e colagista incrível. Não é segredo que amo colagem, e sempre fico sem palavras com pessoas que inovam na forma de fazer isso.
Eu amei Sorry, Baby , acho que o filme que mais gostei até agora no ano, e escrevi uma resenha pra Delirium!
Daruma é um quadrinho do Monge Han, artista que acompanho desde o tempo que ele fazia só tatuagem. A história me deu uma nostalgia desgraçada da época que eu lia Combo Rangers kkk
Boca de Siri é um quadrinho do Paulo Moreira e cara… ele tem uma delicadeza para olhar o mundo, somado com um humor absurdo. Sou apaixonada por tudo dele kk
E só pra não esquecer…
Meu livro de contos, Museu das Pequenas Falhas de Caráter, está à venda na Amazon!
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Eu fico triste com tanta performance. Tudo virou performance. As pessoas tem que vencer em tudo e não vêem mais nada do caminho, da paisagem, do trajeto, do que aprenderam e do que as modificou nesse meio tempo. É uma jornada do herói performática e sem elixir ou espada no final.
Abraço.
Obrigada por esse texto!